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Controlo da sua Asma

Asma na primeira pessoa

Asma na primeira pessoa Luís Araújo, Imunoalergologista do Instituto CUF Porto e vice-presidente da Associação Portuguesa de Asmáticos

“A asma não me controla”

A asma tem-me acompanhado desde o nascimento. Literalmente desde o nascimento, dado que a minha mãe foi ao hospital com uma crise de asma e eu resolvi aproveitar a estadia e nascer. Já lá vão 39 anos e desde então mantenho uma relação com a asma.

Da infância, até à idade escolar, lembro- me dos inúmeros recursos ao serviço de urgência (sobretudo no inverno), de várias noites passadas no hospital no meio de outras crianças em crise e sobretudo, da angústia de ficar internado (hoje pode parecer muito estranho para a maioria das pessoas, mas há 30 e tal anos, as crianças que ficavam internadas os pais não as podiam acompanhar à noite). Durante alguns anos, a possibilidade de ficar sozinho no hospital constituiu o meu maior medo.

Na escola primária, a situação melhorou. Apesar de manter tratamento diário e vacinas antialérgicas regulares, sentia-me uma criança normal. Pratiquei a inevitável natação (penso que a maioria dos asmáticos da minha geração foram incentivados a praticar natação), brincava, jogava à bola e as idas ao serviço de urgência diminuíram. Na escola os meus colegas sabiam que eu tinha um inalador que tinha de utilizar caso tivesse falta de ar – alguns faziam o favor de o irem buscar nos casos de urgência em que os gatinhos me apanhavam no recreio e o inalador tinha ficado na sala.

Com a adolescência, a situação melhorou ainda mais. Praticava exercício de alta competição (não a famosa natação que assim que pude escolher abandonei, mas treinava andebol todos os dias), as consultas médicas eram mais espaçadas, idas ao serviço de urgência eram praticamente nulas e mesmo a medicação era muitas vezes feita apenas por períodos. Tudo ótimo, sentia-me um verdadeiro vencedor da asma. Nos últimos anos do secundário apenas me recordo de um efeito negativo da asma – a exposição ao tabaco. Era muito estranho sentir que eu é que era o anormal, quando tinha de escolher entre sair com os amigos à noite como qualquer adolescente e o inevitável agravamento que se seguia (a tosse era certa após duas a três horas de exposição ao tabaco, a falta de ar fazia uma rara aparição nesta fase e o rendimento desportivo piorava). Globalmente, e tendo a minha mãe como comparação, que sempre sofrera com a asma, sentia- me confiante, ativo. Tinha controlado a asma.

Nos primeiros anos de faculdade quase me esqueci da asma. Praticamente não fazia medicação e gradualmente alguns sintomas ligeiros tinha passado). Nada de mais errado. Descobri da forma quase fatal que a asma não gosta que se esqueçam dela. Após anos sem tratamento diário, de diminuição da atividade física, de uma opção por ignorar os sintomas cada vez mais frequentes, certa noite pelos 23 anos (após uma semana normal de férias no campismo com os amigos) senti-me estranhamente cansado e em alguns minutos surgiu uma falta de ar como nunca tinha sentido. Comecei a descarregar as cápsulas do inalador, 1, 2 , 3 inalações e a falta de ar cada vez pior. Senti que ia morrer com falta de ar e depois finalmente acordei…. Nos cuidados intensivos, com um tubo na boca e com um médico otimista a dizer-me que estava tudo bem e que depois desse ataque devia ficar livre da tropa (fiquei sempre a pensar que o médico achou que era a coisa mais positiva a retirar daquele episódio, mas para mim bastava ter-me dito que estava vivo). A partir desse dia, percebi que, tal como tinha feito durante a infância e adolescência, tinha de voltar a controlar a asma, mantendo a recordação do quão cruel ela pode ser com quem a esquece e não a controla.

Fonte: Artigo publicado no Dossiê Especial Saúde, suplemento integrante do Diário de Notícias e Jornal de Noticias de 18 de abril de 2017

PRT/AST/0002/17l Data de preparação: Julho 2017